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Misturar dinheiro pessoal e da propriedade pode virar uma “bola de neve”, alerta consultor

Durante entrevista ao RuralCast, do Grupo Amazun, Ruan Vitor Barbosa, CEO da RV Solution, explica como a falta de separação das finanças pessoais e do negócio rural pode comprometer a gestão, dificultar o planejamento

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Dinheiro da propriedade não é dinheiro pessoal: especialista alerta para erro comum no agronegócio

A administração financeira de uma propriedade rural vai muito além de acompanhar o dinheiro recebido pela venda de uma safra ou verificar se existe saldo disponível na conta bancária. Para garantir a continuidade das atividades, o produtor precisa conhecer seus custos, identificar suas despesas e compreender quanto dos recursos movimentados realmente pertence ao negócio.

Uma das dificuldades enfrentadas no campo é justamente a falta de separação entre os gastos pessoais e as movimentações financeiras da atividade produtiva. Essa prática pode comprometer o controle do caixa, dificultar a análise dos resultados e provocar problemas que se acumulam ao longo do tempo.


O assunto foi um dos principais destaques de uma entrevista especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, realizada durante a segunda edição do Agro&Cont 2026, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal.

A conversa foi conduzida pelo professor Charles Carminati, que recebeu Ruan Vitor Barbosa, bacharel em Direito pela Universidade de Cuiabá (UNIC), com MBA em Controladoria Financeira e CEO da RV Solution, empresa que atua na gestão financeira, estruturação de processos e organização empresarial.

Durante o episódio, o especialista apresentou orientações para produtores rurais e empresários que desejam melhorar o controle financeiro, especialmente diante das mudanças previstas com a implementação da reforma tributária.

"PF e PJ não se misturam": o primeiro passo para organizar as finanças

Ao ser questionado por Charles Carminati sobre quais orientações daria a um produtor ou empresário que deseja começar a organizar suas finanças, Ruan apontou a separação entre os recursos pessoais e empresariais como a medida mais importante.

"Primeira dica, acho que é primordial e é a principal de todas: PF e PJ não se misturam", destacou o empresário.

Segundo o entrevistado, compreender essa diferença é indispensável para evitar que despesas particulares sejam pagas com recursos destinados à operação do negócio.

"O dinheiro da empresa é da empresa. O seu dinheiro é o seu dinheiro", afirmou.

Na prática, a falta dessa separação pode dificultar a identificação de quanto a atividade realmente gera de receita, quais despesas estão relacionadas à produção e quanto o proprietário está utilizando para atender suas necessidades pessoais.

Em uma propriedade rural, por exemplo, os recursos recebidos pela comercialização de produtos precisam ser administrados considerando despesas com insumos, combustíveis, manutenção de equipamentos, transporte, mão de obra e demais compromissos da atividade.

Quando parte desse dinheiro é utilizada para despesas particulares sem um controle adequado, o produtor pode perder a dimensão de quanto realmente precisa manter disponível para o próximo ciclo produtivo.

Ruan foi enfático ao explicar os riscos desse comportamento.

"As coisas não podem ser unificadas, porque senão vira uma bola de neve enorme e você não consegue se organizar dentro desse cenário", alertou.

Para o produtor rural pessoa física, a orientação também é relevante: mesmo quando a atividade não é exercida por meio de uma pessoa jurídica, separar os registros e os recursos da produção dos gastos familiares ajuda a compreender os resultados do negócio.

Falta de controle pode esconder a verdadeira situação financeira da propriedade

Durante a entrevista, Ruan explicou que muitos produtores ainda concentram suas preocupações exclusivamente na produção.

O agricultor acompanha o desenvolvimento da lavoura, o manejo, a colheita e a comercialização, mas nem sempre dedica a mesma atenção ao controle financeiro.

Segundo ele, essa realidade também está relacionada a uma questão cultural.

Em muitas atividades, existe a percepção de que o negócio está funcionando adequadamente porque as contas estão sendo pagas e o dinheiro continua circulando.

Entretanto, o simples movimento de entrada e saída de recursos não significa necessariamente que a propriedade está apresentando resultados positivos.

Sem registros organizados, o produtor pode ter dificuldades para identificar quanto custa sua produção, quais despesas estão consumindo mais recursos e qual é sua capacidade real de investimento.

O empresário explicou que a organização dos números permite construir uma visão mais estratégica sobre a atividade.

"Eu não consigo organizar algo. Eu não consigo criar estratégias sobre algo que eu não consigo dimensionar", ressaltou.

Na avaliação de Ruan, conhecer a realidade financeira representa o ponto de partida para qualquer planejamento de crescimento.

Essa necessidade se torna ainda mais importante na atividade rural, que possui características próprias, como a sazonalidade das receitas e o intervalo entre o investimento na produção e o recebimento pela comercialização.

Pequenos e médios produtores precisam fortalecer a gestão financeira

Outro ponto destacado na entrevista foi a necessidade de ampliar o acompanhamento financeiro nas propriedades de menor porte.

Ruan observou que grandes produtores frequentemente possuem estruturas administrativas mais organizadas e acesso a profissionais especializados.

Já pequenos e médios agricultores podem enfrentar dificuldades para manter controles detalhados, principalmente quando o próprio produtor acumula as responsabilidades pela produção, comercialização e administração.

Nesse cenário, a separação das despesas pessoais e das movimentações da atividade representa uma mudança importante.

O controle pode começar com medidas simples, como registrar todas as entradas e saídas, identificar a finalidade de cada pagamento e acompanhar os compromissos financeiros da propriedade.

A classificação adequada das despesas também permite reconhecer quais setores apresentam maior consumo de recursos.

Durante a entrevista, Ruan apresentou essa orientação como sua segunda dica aos empresários.

Segundo ele, é necessário compreender de onde o dinheiro vem e para onde está sendo direcionado.

"Você precisa saber de onde entrou, qual é a sua principal fonte de entrada, quais são os seus gargalos de saída", explicou.

Com esses registros, o produtor passa a ter melhores condições de avaliar os resultados e estabelecer prioridades para a atividade.

Reforma tributária aumenta a importância da organização financeira

A entrevista também abordou os desafios relacionados à reforma tributária brasileira e seus possíveis impactos sobre o setor agropecuário.

Ruan destacou que o produtor rural participa de uma cadeia econômica que envolve diferentes empresas e prestadores de serviços.

Mesmo quando existem regras tributárias específicas para determinadas atividades rurais, mudanças na tributação podem influenciar fornecedores, operações comerciais e custos.

Por isso, o especialista defende que a organização financeira seja tratada como uma prioridade.

A manutenção de registros claros permite que profissionais da contabilidade compreendam melhor as movimentações da propriedade e avaliem as estratégias fiscais aplicáveis à atividade.

Para Ruan, o produtor precisa ampliar sua visão empresarial e deixar de considerar apenas os resultados físicos da produção.

A gestão financeira passa a ocupar uma posição estratégica no planejamento.

É importante destacar que os efeitos da reforma tributária variam conforme o enquadramento e as características das operações. A entrevista não apresentou cálculos específicos de aumento de impostos para propriedades rurais.

O principal alerta do convidado foi sobre a necessidade de organização para enfrentar mudanças econômicas e tributárias com maior segurança.

Três orientações para evitar problemas financeiros

Na parte final do episódio, o professor Charles Carminati pediu que Ruan apresentasse três recomendações práticas para quem deseja organizar melhor as finanças.

A primeira foi separar os recursos pessoais do dinheiro utilizado no negócio, evitando que despesas particulares comprometam o capital destinado à atividade produtiva.

A segunda recomendação foi classificar receitas e despesas, identificando as principais fontes de entrada de dinheiro e os gastos que mais impactam a operação.

A terceira orientação foi estar aberto a mudanças e buscar conhecimento ou apoio profissional quando necessário.

Segundo o empresário, reconhecer a necessidade de orientação externa pode contribuir para decisões mais fundamentadas.

O especialista também explicou que os princípios básicos de organização financeira não se restringem ao agronegócio.

Por meio da RV Solution, ele atua com empresários de diferentes segmentos, incluindo comércio, serviços e saúde.

Entre os procedimentos mencionados estão o controle de contas a pagar, contas a receber e a conciliação bancária.

Para Ruan, essas práticas ajudam a construir uma base de informações que permite compreender melhor o presente e planejar o futuro.

Organização financeira pode fazer a diferença entre crescer e acumular dívidas

A entrevista demonstrou que uma boa produção não elimina a necessidade de uma administração financeira eficiente.

Uma propriedade pode apresentar resultados produtivos satisfatórios e, ainda assim, enfrentar dificuldades de caixa quando seus recursos não são corretamente organizados.

Separar as finanças pessoais das movimentações da atividade rural, registrar despesas e conhecer os custos reais da produção são medidas que contribuem para evitar decisões baseadas apenas na disponibilidade momentânea de dinheiro.

O professor Charles Carminati destacou, durante a conversa, a importância de levar essas informações aos agricultores e demais empresários, especialmente diante das mudanças econômicas previstas para os próximos anos.

A principal mensagem de Ruan Vitor Barbosa é que o produtor precisa compreender sua propriedade também como um negócio, no qual a organização financeira é tão importante quanto a produção.

Mais do que impedir que problemas se acumulem, o controle dos recursos permite identificar oportunidades, planejar investimentos e tomar decisões com maior segurança.

A entrevista integra a cobertura especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, realizada durante o Agro&Cont 2026, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, com divulgação pelo canal Olá Rondônia, no YouTube.



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