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Agronegócio e sustentabilidade podem caminhar juntos? Pesquisa da UNIR investiga impacto das práticas ESG no desempenho de empresas do G20

Durante cobertura especial do RuralCast em Cacoal, mestrando Lucas Rodrigues de Souza Bispo apresenta pesquisa sobre governança, endividamento e desempenho empresarial, além de discutir a apicultura em Rondônia

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Agronegócio e sustentabilidade: uma relação que a pesquisa científica busca compreender

O agronegócio e a sustentabilidade são frequentemente apresentados como interesses opostos. Entretanto, pesquisas acadêmicas têm buscado compreender de que maneira o desenvolvimento econômico, as práticas ambientais, a responsabilidade social e a governança podem se relacionar dentro das atividades produtivas.


Esse foi um dos principais temas de mais um episódio especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, gravado na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, durante a segunda edição do Agro&Cont 2026.

A entrevista foi conduzida pelo professor Dr. Éverton Gugliotti Coelho, coordenador do curso de Ciências Contábeis da UNIR, e recebeu o mestrando Lucas Rodrigues de Souza Bispo, formado pela própria instituição.

Durante a conversa, Lucas apresentou aspectos de sua trajetória acadêmica e explicou uma pesquisa que pretende investigar como as práticas ambientais, sociais e de governança podem influenciar a relação entre o endividamento e o desempenho de mercado de empresas do agronegócio em economias integrantes do G20.

O episódio também ampliou a discussão para questões diretamente relacionadas a Rondônia, incluindo os desafios da apicultura, o papel dos arranjos produtivos locais e a importância da continuidade das políticas públicas para o fortalecimento das cadeias econômicas.

Sustentabilidade e agronegócio não precisam ser tratados como adversários

Um dos momentos centrais da entrevista foi a reflexão sobre a percepção de que o desenvolvimento do agronegócio e a proteção ambiental seriam objetivos incompatíveis.

Lucas explicou que o Programa de Pós-Graduação em Gestão de Agronegócios e Sustentabilidade (PPGAgro) promove discussões que permitem analisar essa relação sob diferentes perspectivas científicas.

Segundo o pesquisador, o agronegócio deve ser compreendido como uma cadeia ampla, que envolve desde pequenos agricultores familiares até grandes corporações, incluindo fornecedores, organizações, comercialização e serviços relacionados à produção.

Ao comentar a relação entre os dois conceitos, Lucas destacou que "elas podem caminhar próximas", referindo-se às atividades do agronegócio e às práticas de sustentabilidade.

A declaração representa uma das principais reflexões do episódio: o desafio não está simplesmente em escolher entre produzir e preservar, mas em compreender quais práticas podem contribuir para conciliar os diferentes interesses envolvidos.

Essa aproximação, entretanto, exige avaliação técnica e evidências sobre os resultados econômicos, sociais e ambientais das atividades produtivas.

A pesquisa científica desempenha um papel importante justamente por permitir que essas relações sejam investigadas com critérios metodológicos.

Pesquisa da UNIR investiga práticas ESG em empresas do agronegócio do G20

O principal projeto acadêmico apresentado por Lucas envolve o desempenho ESG, sigla em inglês que representa três dimensões de avaliação das organizações: ambiental, social e governança.

A dimensão ambiental está relacionada aos impactos das atividades empresariais sobre os recursos naturais.

A dimensão social contempla aspectos ligados às relações de trabalho, à sociedade e às comunidades impactadas pelas organizações.

Já a governança envolve práticas de administração, transparência, responsabilidade corporativa e mecanismos de controle.

A pesquisa desenvolvida pelo mestrando, sob orientação do professor Ronaldo, tem como recorte empresas do agronegócio relacionadas às economias que integram o G20.

Lucas explicou que a escolha desse universo está relacionada à relevância econômica dessas nações, aos seus níveis de consumo e à participação de suas empresas nas atividades produtivas.

O objetivo é investigar a relação entre endividamento, desempenho de mercado e práticas ESG, utilizando métodos quantitativos para compreender se o desempenho nessas três dimensões modifica a associação entre as variáveis financeiras.

"A nossa intenção é analisar justamente essa relação estatística entre essas variáveis", explicou Lucas.

A proposta busca contribuir para um debate cada vez mais presente no ambiente empresarial: até que ponto as práticas de sustentabilidade e governança estão relacionadas ao desempenho econômico das organizações?

Empresas sustentáveis conseguem melhores condições de financiamento?

Uma das questões mais relevantes levantadas durante o podcast foi a possível relação entre transparência empresarial, confiança dos investidores e acesso ao crédito.

Lucas explicou que as empresas frequentemente precisam recorrer a recursos de terceiros para financiar investimentos, ampliar operações ou sustentar suas atividades.

Nesse cenário, o endividamento pode representar um instrumento de crescimento, mas também exige atenção aos riscos financeiros.

O pesquisador apresentou a hipótese discutida na literatura acadêmica de que empresas com boas práticas de transparência, responsabilidade social e governança podem conquistar maior credibilidade junto aos investidores.

Ao abordar essa relação, afirmou que, diante de informações consistentes sobre sustentabilidade e governança, "o investidor, seja ele brasileiro, seja ele internacional, ele deposita na empresa uma confiança maior".

Segundo ele, essa percepção de confiança pode contribuir, em determinadas condições, para o acesso a financiamentos com custos mais favoráveis.

Entretanto, trata-se de uma relação que depende de diversos fatores econômicos e institucionais.

O trabalho desenvolvido no PPGAgro busca justamente investigar essas associações por meio de análise estatística, sem considerar antecipadamente que a adoção de práticas ESG necessariamente provocará melhoria no desempenho financeiro.

Transparência empresarial precisa ir além dos relatórios

A entrevista também trouxe uma discussão importante sobre a publicação de informações ambientais, sociais e de governança pelas empresas.

Lucas explicou que muitas organizações divulgam relatórios para comunicar suas práticas ao mercado.

Esses documentos podem apresentar informações sobre iniciativas ambientais, compromissos sociais e procedimentos de governança.

A transparência pode ser relevante para investidores, instituições financeiras e outros interessados em avaliar riscos e oportunidades.

Porém, a divulgação de informações não significa, por si só, que os resultados anunciados estejam efetivamente comprovados.

Nesse contexto, a pesquisa acadêmica pode contribuir para distinguir as declarações institucionais das relações observadas nos dados empresariais.

O desafio científico está em identificar se existe associação estatisticamente relevante entre o desempenho ESG e indicadores econômicos e financeiros.

A análise ganha importância especialmente no agronegócio, em que questões ambientais, acesso a mercados, financiamento e competitividade podem estar interligados.

Aprovação na qualificação representa avanço na pesquisa

Durante a gravação do RuralCast, Lucas havia acabado de passar por uma etapa importante do mestrado: a qualificação do projeto de dissertação.

O professor Éverton, que participou da banca, parabenizou o estudante pela aprovação.

Lucas aproveitou o momento para explicar ao público a diferença entre a qualificação e a defesa final do mestrado.

Segundo ele, a qualificação permite que uma banca de professores avalie o projeto, os procedimentos metodológicos e a viabilidade da continuidade da pesquisa.

"A qualificação não é a defesa final, é um projeto que a gente tem que elaborar para você concluir o mestrado", explicou.

A etapa contribui para aperfeiçoar o trabalho, identificar possíveis ajustes e fortalecer a investigação antes da apresentação da dissertação definitiva.

No caso de Lucas, o estudo está vinculado à segunda linha de pesquisa do PPGAgro, voltada à Gestão, Produção e Inovação Sustentável no Agronegócio Amazônico.

A aprovação representa um avanço acadêmico, mas a investigação ainda precisa ser concluída para que seus resultados possam ser apresentados e avaliados.

Apicultura em Rondônia: pesquisa aponta fragilidade no apoio institucional

Além da dissertação sobre ESG, Lucas apresentou outras pesquisas desenvolvidas durante sua formação no mestrado.

Uma delas aborda a cadeia produtiva da apicultura no estado de Rondônia.

O estudo analisou aproximadamente duas décadas de informações relacionadas à atividade e observou a trajetória de um Arranjo Produtivo Local (APL) associado à região de Vilhena.

Segundo Lucas, o segmento já apresentou uma estrutura de articulação institucional mais forte, mas perdeu parte desse apoio ao longo do tempo.

"Nós perdemos um pouco do apoio institucional", destacou.

O pesquisador ressaltou que a redução dessa articulação não significa necessariamente uma diminuição da produção de mel.

A questão identificada está relacionada à estrutura de apoio, à coordenação entre os participantes da cadeia e à capacidade de manter iniciativas conjuntas.

A análise evidencia que uma atividade econômica pode continuar produzindo, mas enfrentar dificuldades na organização de seus mecanismos de cooperação, assistência técnica e desenvolvimento.

Arranjos produtivos dependem da participação de diferentes agentes

Durante a conversa, o professor Éverton aprofundou a reflexão sobre o funcionamento dos arranjos produtivos locais.

Ele explicou que uma cadeia econômica não depende exclusivamente de quem produz.

O desenvolvimento de determinada atividade também está relacionado à presença de fornecedores, consumidores, instituições de pesquisa, assistência técnica, organizações de apoio e agentes responsáveis pela articulação entre os participantes.

Quando uma dessas conexões enfraquece, a estrutura coletiva pode enfrentar dificuldades.

Essa realidade se torna especialmente relevante em atividades ligadas à agricultura familiar, nas quais os produtores frequentemente dependem de redes de cooperação e de mecanismos de apoio para fortalecer sua presença no mercado.

A discussão apresentada sobre a apicultura demonstra que o desenvolvimento econômico regional não depende somente de produtividade.

Também exige organização, acesso a conhecimento, articulação institucional e capacidade de planejamento.

Descontinuidade de políticas públicas pode enfraquecer cadeias produtivas

Outro ponto de destaque foi a necessidade de continuidade das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional.

Durante a entrevista, o professor Éverton apresentou uma análise crítica sobre iniciativas que recebem incentivos em determinado período, mas perdem prioridade após mudanças administrativas.

Segundo ele, essa instabilidade pode comprometer a consolidação de atividades econômicas.

"O Estado de Rondônia, de uma maneira geral, está sempre em reconstrução, está sempre começando de novo", afirmou o professor, ao comentar sua percepção sobre a descontinuidade de iniciativas públicas.

A declaração levantou uma reflexão sobre o desafio de transformar projetos temporários em estratégias duradouras de desenvolvimento.

No caso de cadeias produtivas como a apicultura, a redução do apoio institucional pode prejudicar mecanismos de coordenação, planejamento e cooperação.

A discussão não significa que todas as mudanças de gestão tenham os mesmos efeitos, mas evidencia a importância de avaliar a continuidade das políticas públicas e seus impactos concretos sobre os produtores.

Pesquisa sobre terras indígenas amplia o olhar para a Amazônia

Lucas também relatou sua participação em uma pesquisa relacionada às terras indígenas na Amazônia, desenvolvida em conjunto com um pesquisador identificado como Francisco.

O trabalho envolve levantamento e mapeamento de informações territoriais, incluindo aspectos relacionados a Rondônia.

Segundo o mestrando, a pesquisa foi concluída e havia previsão de apresentação em um evento acadêmico.

A experiência foi utilizada como exemplo da diversidade de assuntos discutidos no PPGAgro.

O programa permite o desenvolvimento de estudos que ultrapassam a produção agropecuária em sentido restrito, envolvendo dimensões territoriais, ambientais, econômicas e sociais da Amazônia.

Essa abordagem interdisciplinar contribui para compreender a complexidade do desenvolvimento regional e as relações entre diferentes usos do território.

Do curso de Ciências Contábeis ao mestrado em agronegócio

A entrevista também apresentou a trajetória acadêmica de Lucas Rodrigues de Souza Bispo.

O estudante ingressou no curso de Ciências Contábeis da UNIR, em Cacoal, no final de 2021.

Devido à reorganização do calendário acadêmico após a pandemia, a graduação foi realizada em um período intenso, com semestres mais curtos.

Lucas concluiu o curso no final de 2024 e, posteriormente, ingressou em uma especialização no campus da UNIR em Rolim de Moura.

O interesse pela carreira acadêmica e pela docência contribuiu para sua decisão de participar do processo seletivo do PPGAgro.

O ingresso no mestrado ocorreu em setembro de 2025.

Segundo o pesquisador, o programa ampliou sua percepção sobre o agronegócio e sobre a importância econômica e social das atividades produtivas em Rondônia.

A trajetória demonstra como a formação em Ciências Contábeis pode dialogar com diferentes áreas do conhecimento, incluindo sustentabilidade, governança e gestão do agronegócio.

É possível trabalhar e cursar um mestrado ao mesmo tempo?

Uma das perguntas importantes respondidas por Lucas foi sobre a possibilidade de conciliar a pós-graduação com uma atividade profissional.

Atualmente, ele reside em Rolim de Moura e trabalha no setor bancário.

Durante o podcast, relatou que a rotina exige organização, dedicação e disponibilidade para atividades acadêmicas fora dos horários tradicionais de trabalho.

O mestrando explicou que o PPGAgro exige o cumprimento de 24 créditos distribuídos em oito disciplinas.

Em sua trajetória, cursou cinco disciplinas no primeiro período e outras três no período seguinte.

As atividades incluem aulas, leituras científicas, produção de artigos, avaliações e desenvolvimento de pesquisas.

Apesar das exigências, Lucas ressaltou que a experiência pode ser conciliada com o trabalho.

"Não é algo impossível de você conciliar com alguma atividade laborativa que você tem", afirmou.

Ele reconheceu, entretanto, que a rotina envolve abrir mão de parte dos finais de semana e dedicar tempo significativo à produção acadêmica.

A mensagem foi direcionada principalmente aos profissionais que desejam continuar estudando, mas encontram dificuldades para organizar a rotina entre emprego, família e universidade.

PPGAgro oferece formação interdisciplinar

Outro diferencial destacado foi a diversidade de formações dos professores e pesquisadores que participam do mestrado.

Lucas explicou que o PPGAgro reúne profissionais de áreas como Ciências Contábeis, Economia, Administração, Engenharia Agronômica e Engenharia Florestal.

O programa também desenvolve atividades relacionadas à realidade produtiva amazônica, incluindo visitas técnicas e contato com instituições de pesquisa.

Durante a entrevista, o mestrando mencionou uma visita realizada à Embrapa, em Vilhena, como parte das experiências oferecidas durante a formação.

Essa aproximação permite que os acadêmicos relacionem os conhecimentos teóricos com situações presentes nas cadeias produtivas regionais.

Como ingressar no mestrado da UNIR em Cacoal?

Na parte final da entrevista, Lucas compartilhou orientações para estudantes e profissionais interessados em ingressar no PPGAgro.

Segundo ele, o programa costuma oferecer 20 vagas anuais, distribuídas por processo seletivo.

O mestrando explicou que os candidatos precisam apresentar um pré-projeto de pesquisa relacionado às linhas do programa, abordando questões que conectem agronegócio e sustentabilidade.

A elaboração desse documento foi apontada como uma das etapas que exigem maior preparação.

O candidato precisa apresentar uma proposta clara, com fundamentação teórica, organização metodológica e adequação às regras estabelecidas no edital.

Lucas informou que, nos processos que conheceu, as seleções costumavam ocorrer entre maio e junho, com início das atividades acadêmicas nos meses seguintes. Os prazos devem ser confirmados em cada edital.

O estudante incentivou os interessados a conhecer o programa, conversar com pesquisadores, estudar as linhas de pesquisa e se preparar antecipadamente.

Ao comentar sua experiência, afirmou:

"Eu me inscrevi, consegui. Não me arrependo. Me inscreveria de novo? Com certeza."

A declaração sintetizou sua avaliação positiva sobre o mestrado e as oportunidades de formação científica.

Conhecimento científico pode contribuir para o futuro do agronegócio em Rondônia

A entrevista com Lucas Rodrigues de Souza Bispo demonstrou como a pesquisa acadêmica pode contribuir para compreender desafios econômicos, ambientais e sociais ligados ao agronegócio.

O estudo sobre ESG e desempenho empresarial aborda questões relevantes para grandes organizações e para os mercados internacionais.

Ao mesmo tempo, as pesquisas sobre apicultura e arranjos produtivos locais aproximam o debate das necessidades de pequenos produtores e das estruturas econômicas regionais.

Essa diversidade mostra que o desenvolvimento sustentável envolve diferentes escalas de análise, desde o funcionamento de empresas de capital aberto até as condições de organização de atividades ligadas à agricultura familiar.

O episódio também reforçou a importância da UNIR e do PPGAgro na formação de pesquisadores capazes de investigar os desafios do desenvolvimento amazônico.

A principal reflexão deixada pela conversa é que sustentabilidade, desempenho econômico e desenvolvimento regional precisam ser estudados de forma integrada, com dados, evidências e atenção às realidades dos produtores.

Mais do que apresentar respostas prontas, a pesquisa científica contribui para formular perguntas relevantes e identificar caminhos para decisões mais bem fundamentadas.

A entrevista integra a cobertura especial do RuralCast, do Grupo Amazun, durante o Agro&Cont 2026, realizado na UNIR, em Cacoal, com divulgação pelo canal Olá Rondônia, no YouTube.


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