ROLIM DE MOURA (RO) — Quem construiu o território brasileiro? Quem se beneficiou da ocupação das terras? Quais foram os custos sociais e ambientais desse processo? E, principalmente, que modelo de desenvolvimento a sociedade deseja construir para as próximas gerações?
Essas questões estiveram no centro da palestra “Formação Territorial no Brasil e Amazônia”, ministrada pelo professor doutor Manoel Fernandes de Sousa Neto, da Universidade de São Paulo (USP), durante o Seminário Questão Agrária, Território e Agricultura Camponesa em Rondônia, realizado na quarta-feira (21), no auditório da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus Rolim de Moura.
A atividade contou com mediação do professor doutor Fernando Bilhalva Vitória, da UNIR, e reuniu integrantes da comunidade acadêmica, agricultores e representantes de movimentos sociais ligados às questões do campo.
Professor titular do Departamento de Geografia da USP e pesquisador dedicado à história da geografia e à geografia histórica do capitalismo, Manoel apresentou uma interpretação sobre a construção do território brasileiro, relacionando acontecimentos históricos às desigualdades sociais, à apropriação dos recursos naturais e às transformações econômicas que continuam influenciando a Amazônia.
Ao longo da exposição, o pesquisador defendeu que compreender o presente exige investigar os acontecimentos do passado, especialmente aqueles associados à colonização, à escravidão, à concentração fundiária e à exploração do trabalho.
A formação territorial e as marcas da desigualdade
Um dos principais argumentos da palestra foi que a formação do território brasileiro não ocorreu apenas por movimentos espontâneos de ocupação e crescimento populacional.
Na interpretação do professor, o processo envolveu disputas por poder, interesses econômicos e mecanismos de apropriação das terras que, em diferentes períodos históricos, produziram deslocamentos populacionais e conflitos.
Recorrendo a conceitos de Karl Marx e de pesquisadores que estudaram a expansão do capitalismo, Manoel explicou que a concentração de propriedades e a perda da autonomia produtiva de comunidades rurais são elementos importantes para compreender a organização econômica e social.
Para ele, determinadas relações estabelecidas durante a formação do Brasil continuam presentes, ainda que tenham assumido novas características.
“O que parece passado, na realidade não é passado, é o nosso presente continuado.”
A declaração sintetizou uma das reflexões centrais do encontro: até que ponto os problemas atuais do país representam situações novas e quanto deles está relacionado a estruturas históricas que ainda não foram superadas?
Nesse contexto, a palestra trouxe ao debate questões como a desigualdade no acesso à terra, as condições de trabalho, a concentração de riqueza e os conflitos envolvendo diferentes formas de utilização do território.
Amazônia: ocupação econômica, povos originários e transformação ambiental
Ao direcionar sua análise para a Amazônia, o professor questionou a ideia de que a região tenha sido historicamente um território vazio, disponível para ocupação e exploração econômica.
Ele destacou a presença milenar dos povos indígenas e o papel dessas populações na construção de conhecimentos sobre a floresta, o cultivo de alimentos, a biodiversidade e a utilização sustentável dos recursos naturais.
Segundo o pesquisador, os territórios amazônicos devem ser compreendidos também a partir das relações culturais e sociais estabelecidas pelas comunidades que os habitam.
“Destruir os povos da floresta é, portanto, um projeto de destruição da floresta, portanto, é um processo de destruição da Amazônia.”
A afirmação expressa sua compreensão de que a proteção ambiental está diretamente relacionada à preservação dos direitos e dos modos de vida das populações tradicionais.
A reflexão ganha importância em Rondônia, estado cuja história reúne diferentes processos de migração, expansão agropecuária, ocupação fundiária e transformação da paisagem.
A abertura de estradas, a implantação de projetos de colonização, o crescimento das cidades e a ampliação das atividades produtivas modificaram profundamente o território rondoniense.
Essas transformações contribuíram para a formação econômica e social do estado, mas também envolveram conflitos relacionados à terra, pressões sobre territórios tradicionais e impactos ambientais.
A discussão proposta durante o seminário convida a sociedade a considerar diferentes dimensões dessa história, incluindo as experiências dos migrantes, dos agricultores familiares e das populações que já viviam na região.
Rondônia e a expansão da fronteira econômica
Outro ponto abordado foi a participação da Amazônia na expansão das atividades econômicas brasileiras, especialmente a partir da segunda metade do século XX.
O pesquisador mencionou processos históricos como a mobilização de trabalhadores para a exploração da borracha e as políticas de ocupação territorial desenvolvidas durante o regime militar.
Na sua avaliação, a formação de Rondônia precisa ser compreendida dentro de um movimento mais amplo de reorganização do trabalho, apropriação de terras e integração da região aos mercados nacionais e internacionais.
Essa perspectiva amplia a discussão sobre o desenvolvimento regional.
O crescimento de uma cidade, a abertura de novas áreas produtivas e o aumento da circulação de riquezas representam transformações econômicas importantes. Entretanto, também provocam questionamentos sobre a distribuição dos benefícios gerados.
Desenvolver um território significa apenas ampliar a produção e os investimentos ou também garantir qualidade de vida, segurança jurídica, direitos sociais e oportunidades para a população?
A pergunta não desconsidera a importância da atividade econômica. Ela propõe avaliar o desenvolvimento por diferentes indicadores, incluindo emprego, renda, educação, acesso à terra, preservação ambiental e condições de vida.
Agronegócio e agricultura camponesa: modelos econômicos em discussão
Um dos momentos mais marcantes da palestra foi a crítica apresentada pelo professor ao modelo econômico associado à produção agropecuária em larga escala.
Manoel questionou discursos que atribuem ao agronegócio a responsabilidade exclusiva pela sustentação da economia brasileira e chamou atenção para o papel das políticas públicas, do crédito rural, dos incentivos e da infraestrutura no financiamento das atividades produtivas.
“O agronegócio, gente, não sustenta o Brasil. O agronegócio é sustentado pelo Brasil.”
A declaração expressa o posicionamento crítico do pesquisador sobre as relações entre a atividade agropecuária e o Estado.
O professor também associou parte da expansão econômica à valorização das terras, ao mercado financeiro e às cadeias internacionais de commodities.
Sua abordagem colocou em discussão as diferenças entre a produção direcionada ao mercado global e os sistemas produtivos voltados ao abastecimento alimentar e à manutenção das comunidades rurais.
Nesse debate, é importante considerar que o setor agropecuário brasileiro reúne realidades diversas. Existem grandes empreendimentos, cooperativas, pequenas propriedades, estabelecimentos familiares e diferentes formas de organização econômica.
A agricultura familiar também participa de cadeias agroindustriais, o que demonstra que essas categorias nem sempre representam sistemas completamente separados.
A reflexão proposta pelo seminário, portanto, permite uma análise mais ampla: como conciliar produtividade, geração de renda, segurança alimentar, valorização dos produtores e responsabilidade ambiental?
Mais do que estabelecer uma oposição simplificada entre grandes e pequenos produtores, o debate evidencia a necessidade de compreender quem recebe os benefícios da produção, quais recursos são utilizados e como os resultados econômicos chegam à sociedade.
Produção de alimentos e o desafio da fome
A relação entre produção agrícola e segurança alimentar também recebeu destaque.
O professor questionou a ideia de que o crescimento da produção, isoladamente, seja suficiente para eliminar a fome.
“Nunca produzimos tanto e nunca tivemos tanta fome.”
A frase, utilizada como crítica social, chamou atenção para uma questão fundamental: produzir alimentos em grande quantidade não garante, automaticamente, que todas as pessoas tenham condições de adquiri-los.
A disponibilidade de alimentos precisa ser acompanhada de renda, acesso aos mercados, infraestrutura de distribuição e políticas de abastecimento.
O palestrante destacou ainda a importância dos sistemas tradicionais de produção, do armazenamento de sementes, da diversidade de cultivos e das práticas de compartilhamento de alimentos presentes em diferentes comunidades.
Ao recorrer à obra Holocaustos Coloniais, do historiador Mike Davis, Manoel discutiu como políticas econômicas e decisões governamentais contribuíram para agravar crises alimentares durante períodos de seca em diferentes regiões do mundo.
Sua reflexão enfatizou que fenômenos climáticos e condições sociais precisam ser analisados conjuntamente para compreender a dimensão humana das crises alimentares.
A questão que permanece é direta: de que adianta uma sociedade ampliar continuamente sua capacidade de produzir se parte da população ainda enfrenta dificuldades para garantir a alimentação diária?
Conhecimento tradicional e educação do campo
A valorização do conhecimento produzido fora dos espaços acadêmicos foi outro destaque da apresentação.
O professor defendeu que agricultores, indígenas, ribeirinhos e outras comunidades desenvolvem saberes fundamentais para a compreensão dos ambientes em que vivem.
Para exemplificar, comparou o conhecimento científico especializado à experiência de pessoas que conhecem profundamente a vegetação, os animais e os recursos naturais de determinado território.
“Sofisticado é o mateiro. Esse é sofisticado. Esse sabe muito.”
A afirmação provocou uma reflexão sobre os diferentes caminhos de construção do conhecimento.
Um pesquisador pode desenvolver estudos altamente especializados sobre determinada espécie. Ao mesmo tempo, uma pessoa que convive diariamente com a floresta pode reunir conhecimentos sobre ciclos naturais, características das plantas, relações entre espécies e formas de utilização dos recursos.
Na avaliação do palestrante, reconhecer essas experiências pode enriquecer a produção científica e aproximar as universidades das necessidades reais das comunidades.
A discussão teve significado especial para os participantes ligados à Educação do Campo.
O professor defendeu a permanência e o fortalecimento dos cursos universitários que dialogam com agricultores, populações tradicionais e movimentos sociais.
Para ele, a universidade pública deve ser também um espaço de construção coletiva do conhecimento, capaz de reconhecer diferentes experiências, perspectivas e formas de compreender a realidade.
Reforma agrária, conflitos no campo e direitos sociais
Durante o debate com o público, participantes levantaram questões relacionadas à reforma agrária, à concentração fundiária e às dificuldades enfrentadas por comunidades rurais.
O professor apresentou críticas a determinados mecanismos de desapropriação e indenização de grandes propriedades, defendendo uma discussão sobre a origem da posse das terras e a utilização dos recursos públicos.
Também foram abordadas preocupações sobre conflitos agrários, ameaças a comunidades e os desafios enfrentados pelos movimentos sociais na defesa dos direitos territoriais.
Esses temas exigem uma análise que considere tanto os direitos de propriedade e os procedimentos legais quanto a função social da terra, os direitos das populações tradicionais e a proteção das pessoas envolvidas em disputas fundiárias.
A palestra demonstrou que a questão agrária não se limita à produção rural. Ela envolve também justiça, cidadania, acesso às políticas públicas e relações de poder.
Universidade pública, participação social e pensamento crítico
Ao defender a educação pública, Manoel afirmou que o ambiente universitário deve estimular a investigação, a diversidade de conhecimentos e a capacidade de questionar interpretações consolidadas.
A exposição também trouxe críticas políticas ao neoliberalismo e a determinadas formas de organização econômica, apresentadas pelo professor a partir de sua perspectiva teórica.
As avaliações foram acompanhadas de referências a autores da filosofia, da geografia, da história e da economia política.
Entre os pesquisadores e pensadores mencionados estiveram Karl Marx, István Mészáros, Immanuel Wallerstein, Mike Davis, José Augusto Pádua e Antônio Carlos Robert Moraes.
Essas referências ajudaram a construir uma abordagem que relacionou acontecimentos históricos internacionais às transformações ocorridas no Brasil.
Ao mesmo tempo, a pluralidade de interpretações é parte indispensável do pensamento crítico. Os argumentos apresentados podem ser discutidos, aprofundados e confrontados com pesquisas, documentos e indicadores socioeconômicos.
O conhecimento avança não apenas quando uma ideia é aceita, mas também quando suas explicações são investigadas, questionadas e submetidas ao debate.
Participação do público aproximou teoria e realidade
A etapa de perguntas ampliou a discussão e permitiu relacionar as reflexões acadêmicas aos desafios vividos no cotidiano rural.
Estudantes, professores, agricultores e representantes de movimentos sociais apresentaram preocupações sobre os rumos da agricultura, a educação popular, a organização das comunidades, os direitos sociais e os conflitos no campo.
Entre os assuntos discutidos estiveram a necessidade de fortalecer a produção de alimentos, a importância da assistência técnica e a participação das universidades na construção de soluções para problemas regionais.
O professor também ressaltou que os conhecimentos acumulados pelas comunidades precisam ser considerados na formulação de pesquisas e de políticas públicas.
O diálogo evidenciou que a questão agrária envolve diferentes perspectivas e não pode ser compreendida exclusivamente por indicadores econômicos.
Para quem vive e trabalha no campo, os debates sobre terra, alimentação e ambiente estão diretamente relacionados à sobrevivência das famílias, à continuidade das atividades produtivas e às perspectivas para as próximas gerações.
Que desenvolvimento queremos para Rondônia?
A palestra deixou uma reflexão especialmente importante para a realidade rondoniense.
Rondônia é resultado de diferentes processos históricos de ocupação, migração, produção econômica e transformação territorial. A agricultura, a pecuária, o comércio e outras atividades contribuem para a economia estadual e para a subsistência de milhares de famílias.
Ao mesmo tempo, o estado enfrenta o desafio permanente de conciliar crescimento econômico, proteção ambiental, segurança jurídica, direitos sociais e oportunidades para os moradores do campo e das cidades.
Nesse cenário, discutir a formação territorial significa também analisar os caminhos escolhidos para o futuro.
A expansão da produção deve ser acompanhada de quais responsabilidades? Como ampliar as oportunidades para agricultores familiares? De que maneira a educação e a pesquisa podem contribuir para o desenvolvimento regional? Como garantir a preservação dos recursos naturais sem desconsiderar as necessidades econômicas das comunidades?
Essas perguntas demonstram que o debate não termina com a identificação dos problemas históricos.
Ele se amplia quando a sociedade busca compreender suas causas e discutir alternativas.
A reflexão final: por que a realidade não poderia ser diferente?
Ao encerrar sua participação, o professor Manoel Fernandes de Sousa Neto apresentou uma pergunta que sintetizou a proposta crítica de sua exposição:
“Por que é que o mundo é assim se ele poderia ser outro?”
A frase resume a importância de investigar as estruturas sociais, econômicas e políticas que influenciam a vida coletiva.
O pensamento crítico não exige concordância automática com determinada interpretação. Exige disposição para examinar os fatos, conhecer diferentes perspectivas, identificar contradições e formular perguntas capazes de aprofundar o conhecimento.
O Seminário Questão Agrária, Território e Agricultura Camponesa em Rondônia proporcionou justamente esse espaço de discussão, aproximando a universidade de questões que fazem parte da realidade estadual.
Mais do que revisitar a história da ocupação brasileira, a palestra estimulou uma reflexão sobre o significado do desenvolvimento, a importância dos conhecimentos tradicionais, a produção de alimentos e a responsabilidade social diante das transformações ambientais.
A mensagem que permanece é que compreender o passado pode ser fundamental para tomar decisões mais conscientes no presente. Afinal, o futuro de Rondônia depende não apenas do crescimento de sua economia, mas também das escolhas coletivas sobre como utilizar suas riquezas, proteger seus recursos e garantir oportunidades para sua população.