Uma viagem que deveria durar poucos meses se transformou em uma vida dedicada a acompanhar e registrar Rondônia. Foi a partir dessa lembrança que o jornalista, escritor e historiador Lúcio Albuquerque conversou com Lenílson Guedes no PodRondônia, do Grupo Amazun, exibido no canal Olá Rondônia. Gravada em 24 de setembro de 2026, a entrevista percorreu sua trajetória profissional e episódios que presenciou durante as transformações do antigo território federal.
Lúcio situou sua chegada a Rondônia em 1975, quando veio trabalhar como repórter. Ao recordar as decisões que marcaram sua vida, colocou a profissão, o casamento e a mudança para o estado entre as mais importantes. “Eu vim para cá [...] para passar três meses”, contou, ao observar que permaneceu e construiu em Rondônia sua história pessoal e profissional.
O período ofereceu ao repórter a oportunidade de acompanhar uma região em rápida mudança. Durante a entrevista, ele lembrou a chegada de famílias de outras partes do país, os projetos de colonização e o crescimento de localidades que viriam a se tornar municípios. A memória dessas transformações apareceu menos como uma sequência de datas e mais como a experiência de quem precisou viajar para conhecer os lugares e ouvir as pessoas envolvidas.
As distâncias eram parte do trabalho. Lúcio relatou deslocamentos por estradas difíceis, rios e diferentes meios de transporte. Ao falar do crescimento de Porto Velho, recordou que mora no mesmo local desde o fim da década de 1970 e que, quando se instalou ali, a infraestrutura urbana ainda não havia alcançado a área. Segundo ele, moradores chegaram a se organizar para abrir acesso à rua. “Eu vi essa história crescendo”, resumiu.
Reportagens que permaneceram na memória
Quando Lenílson perguntou sobre coberturas marcantes, Lúcio destacou a viagem pelo Vale do Guaporé para acompanhar a Festa do Divino Espírito Santo. Ele contou que passou 18 dias com os participantes, navegando e observando a passagem da celebração por comunidades dos dois lados do rio. Mais do que a duração da cobertura, foi a proximidade com os moradores que ficou em sua memória. “Não tem coisa que mais mexeu comigo do que isso. [...] Eu senti a fé de perto”, afirmou.
O convidado também recordou reportagens sobre a política e episódios de investigação. Ao falar de sua carreira, voltou repetidamente à ideia de que o repórter precisa estar presente, conversar, buscar documentos e seguir uma informação até compreender o que ocorreu. Em sua avaliação, esse trabalho dependia da dedicação individual, mas também da estrutura oferecida pelas redações, como transporte e apoio de fotógrafos.
Foi ao comparar aquelas condições com o presente que Lúcio fez suas críticas mais fortes. Para ele, a velocidade de publicação e a facilidade de receber informações pelo celular não substituem a apuração. O jornalista questionou a reprodução de textos sem novas entrevistas e sem verificação, além da mistura entre notícia e opinião. Ao lembrar uma orientação recebida no início da carreira, resumiu a distinção: “Repórter, se reportar você não vai dar opinião.”
Lúcio usou uma frase contundente — “Hoje o jornalismo acabou” — para expressar seu descontentamento com práticas que observa. Ao longo da conversa, explicou que sua crítica se dirige à perda do trabalho de rua, à circulação de matérias semelhantes em diferentes veículos e às dificuldades econômicas enfrentadas pelas equipes. Trata-se de sua avaliação sobre a profissão, construída a partir da comparação com as redações em que trabalhou.
Da composição manual à publicação digital
A evolução da imprensa rondoniense também entrou na entrevista. Lúcio relembrou sua passagem pelo jornal A Tribuna e descreveu as etapas necessárias para produzir uma edição impressa: escrever, compor o texto, preparar imagens e fechar o jornal com os recursos disponíveis na época. Fotografias podiam exigir deslocamento para que fossem transformadas em material adequado à impressão.
Essas experiências fazem parte da pesquisa reunida em seu livro Da Caixa Francesa à Internet — 100 anos da imprensa em Rondônia. Em texto de sua autoria sobre a obra, Lúcio relacionou a história da imprensa local às mudanças provocadas pela migração e pelo desenvolvimento do estado.
Na entrevista, o escritor explicou que o avanço da tecnologia alterou os equipamentos e a velocidade da notícia, enquanto a necessidade de conferir os fatos permaneceu. Ele contou que, em determinada redação, viu colegas iniciarem o expediente consultando mensagens e grupos na internet. Sua reação, segundo relatou, era pedir que também procurassem as fontes fora da redação: “Cadê? [...] Não vão pra rua, gente?”
Lenílson e Lúcio conversaram ainda sobre pressões sofridas pela imprensa. O convidado mencionou situações que afirma ter acompanhado em diferentes momentos de sua carreira e refletiu sobre o risco de dependência econômica dos veículos. Os relatos foram apresentados por ele como parte de sua experiência profissional e de sua defesa da autonomia do trabalho jornalístico.
Ao final, a entrevista revelou uma ligação entre suas duas atividades mais conhecidas. O repórter que acompanhou a formação de cidades é também o escritor que reúne documentos, personagens e lembranças para que essas histórias possam ser consultadas no futuro. Para Lúcio Albuquerque, preservar a memória de Rondônia exige continuar fazendo a pergunta que orientou sua vida nas redações: o que aconteceu, quem estava lá e como é possível comprovar?
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