Agroindústria nasce da união familiar
A força da agricultura familiar, a produção leiteira e a transformação da matéria-prima em produtos de maior valor agregado foram temas de mais uma entrevista do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.
Entrevistado pelo apresentador Inácio Rocha, o produtor Vital do Sacramento Gomes compartilhou a trajetória de sua família na pecuária leiteira e na implantação de uma agroindústria de derivados.
Localizado no Assentamento Joana D’Arc, Linha 11, lotes 21 e 22, o empreendimento surgiu da necessidade de construir uma fonte de renda que permitisse aos irmãos permanecerem próximos dos pais, das esposas e dos filhos.
“Não era um sonho que tínhamos inicialmente, mas, devido às circunstâncias da vida, fomos nos adaptando. Hoje, graças a Deus, temos a nossa agroindústria”, contou Vital.
Antes de iniciar o projeto, Vital e o irmão trabalhavam com compra e venda de gado, atividade que exigia viagens frequentes e longos períodos distantes de casa. Após problemas enfrentados pela família e um acidente sofrido pela mãe, os irmãos decidiram mudar de atividade.
“Eu e meu irmão trabalhávamos com compra e venda de gado e ficávamos muito tempo fora. Decidimos permanecer perto da nossa família, mas precisávamos produzir renda. Foi quando partimos para as vacas de leite”, relatou.
Produção leiteira tornou-se alternativa de renda
A criação de gado leiteiro surgiu como possibilidade de manter a atividade rural e, ao mesmo tempo, garantir maior proximidade entre os integrantes da família.
O projeto começou com a aquisição de animais de alta produção. Conforme Vital, algumas vacas do rebanho conseguem produzir mais de 40 litros de leite por dia, considerando duas ordenhas.
“Temos vacas que chegam a produzir 42 ou 45 litros de leite por dia, em duas ordenhas. Estamos falando de animais de alta lactação”, explicou.
Animais com esse potencial produtivo exigem cuidados especiais com alimentação, sanidade, conforto, suplementação e acompanhamento da produção. Sem o manejo adequado, a vaca não consegue expressar sua capacidade genética.
“Ela produz mais leite, mas também exige um cuidado maior. O leite chega conforme o cuidado que temos com o animal”, afirmou.
A alimentação inclui pastagem, ração, suplementação mineral e vitaminas, de acordo com as necessidades do rebanho. Para Vital, o equilíbrio nutricional influencia diretamente a quantidade e as características do leite.
Baixo valor do leite estimulou a fabricação de iogurte
A decisão de transformar o leite em iogurte ocorreu após a família avaliar o valor pago pela matéria-prima.
Como os animais de alta lactação exigem investimento elevado, vender o leite sem beneficiamento dificultava a cobertura dos custos e reduzia a margem da propriedade.
“Fomos ao laticínio, mas o preço não era o ideal. Como as vacas foram caras, surgiu a ideia de produzir iogurte para valorizar o nosso leite”, explicou Vital.
A agroindustrialização permite que a família deixe de comercializar apenas a matéria-prima e passe a oferecer um produto pronto ao consumidor. Esse processo agrega valor, cria uma marca própria e abre novas possibilidades de mercado.
Além disso, a regularização permite alcançar consumidores da capital e de municípios próximos.
“Com o produto certificado, conseguimos valorizar o leite e ampliar o alcance para Porto Velho e outros municípios”, ressaltou.
Aprendizado começou de maneira artesanal
A trajetória até chegar ao produto atual foi marcada por tentativas, erros e aprendizado. Vital contou que os primeiros iogurtes foram preparados com utensílios domésticos, incluindo uma batedeira da mãe.
Sem formação específica no início do projeto, ele buscou informações e realizou os testes diretamente na propriedade.
“Comecei sozinho. Peguei a batedeira, coloquei o leite para pasteurizar e iniciei os testes. É um processo demorado, de aproximadamente 12 horas”, relembrou.
Os primeiros resultados ficaram longe da qualidade desejada. Algumas receitas apresentavam acidez elevada, excesso de açúcar ou desequilíbrio de sabor.
Em vez de abandonar o projeto, a família passou a registrar cada medida e considerar as avaliações de amigos e consumidores.
“Os primeiros ficaram muito ruins. Depois fomos nos especializando. As pessoas diziam que estava um pouco azedo ou doce, e eu anotava tudo”, contou.
Vital destacou que a fabricação exige precisão. Pequenas alterações na quantidade dos ingredientes podem modificar a textura, o sabor e a qualidade final.
“Trabalhamos com peso e medida. Uma grama a mais ou a menos pode mudar completamente o produto”, explicou.
Oito meses de testes até chegar à receita
O aperfeiçoamento da fórmula levou aproximadamente oito meses. Durante esse período, a família ajustou ingredientes, quantidade de açúcar, acidez, textura e tempo de processamento.
“Depois de oito meses, chegamos ao resultado e eu disse: ‘É esse’. Hoje temos um produto que as pessoas experimentam e elogiam”, afirmou.
A proposta foi desenvolver um iogurte com sabor equilibrado e características mais naturais. Segundo Vital, os produtos são fabricados com pedaços de frutas, sem conservantes e sem adição de amido.
“Todos os nossos produtos possuem pedaços de frutas, não têm conservantes e não têm amido. Focamos nesse objetivo para oferecer uma opção mais natural”, destacou.
A família procurou evitar um sabor excessivamente artificial e a quantidade elevada de açúcar que poderia tornar o produto enjoativo.
Um ano de trabalho para estruturar a agroindústria
A agroindústria familiar completou aproximadamente um ano de trajetória, período marcado por planejamento, obras, compra de equipamentos, testes de receitas e procedimentos para obter a regularização.
Embora a produção comercial tenha começado recentemente, o trabalho de implantação exigiu meses de dedicação.
“Foi cerca de um ano de trabalho e sofrimento até chegar à liberação. Agora começamos efetivamente a colocar o produto no mercado”, declarou Vital.
Paralelamente ao aperfeiçoamento da receita, a família avançou com a documentação e as adequações exigidas pelos órgãos municipais.
A preocupação de Vital era garantir que o produto estivesse pronto para o mercado quando a autorização fosse concedida.
“Meu medo era conseguir liberar a empresa e o iogurte ainda não estar bom. Por isso, enquanto a documentação avançava, continuamos trabalhando e melhorando a receita”, explicou.
Selo SIM representa nova fase
Uma das conquistas mais importantes da agroindústria foi a obtenção do Selo do Serviço de Inspeção Municipal — SIM.
A certificação confirma que o estabelecimento passou pelos procedimentos de inspeção e atende às normas sanitárias municipais aplicáveis à fabricação de produtos de origem animal.
“Recebemos o certificado e estamos muito felizes. É uma bênção de Deus em nossa vida”, comemorou.
O Selo SIM aumenta a segurança dos consumidores e permite que a agroindústria comercialize seus produtos dentro dos limites autorizados pela legislação.
A regularização também abre portas para parcerias com mercados, instituições e programas de compras públicas.
Vital informou que a família já entregou uma remessa de produtos para escolas e iniciou conversas com estabelecimentos comerciais de Porto Velho.
“Já entregamos uma remessa para as escolas e estamos fazendo contatos para atender alguns mercados”, revelou.
Controle começa antes da ordenha
A qualidade do iogurte depende diretamente das condições do leite utilizado. Por isso, os cuidados começam antes mesmo da ordenha.
Vital explicou que os animais e o leite passam por controles durante diferentes etapas. Depois da ordenha, o produto é encaminhado para resfriamento e submetido a novas avaliações antes de entrar no processo industrial.
“Não é simplesmente tirar o leite da vaca e colocar para ferver. Existe um processo. Antes da ordenha já fazemos os controles, e quando o leite chega à indústria passa por outra verificação”, esclareceu.
O controle da temperatura é essencial para manter a qualidade da matéria-prima e impedir a multiplicação de microrganismos.
Na agroindústria, o leite passa pela pasteurização, etapa que utiliza temperatura controlada para reduzir os riscos sanitários.
“A pasteurização exige uma segurança sanitária muito grande, porque estamos trabalhando com um alimento perecível”, observou.
Contraprovas garantem rastreabilidade
Cada lote fabricado possui registros de produção. A agroindústria também mantém amostras, chamadas de contraprovas, armazenadas durante o período determinado para acompanhamento.
Se houver alguma reclamação ou suspeita relacionada a determinado lote, a amostra poderá ser analisada.
“De tudo o que produzimos fica uma contraprova guardada, com a data correta. Se acontecer alguma coisa, teremos aquela amostra para verificar”, explicou Vital.
Esse cuidado fortalece a rastreabilidade e permite identificar quando o produto foi fabricado, quais controles foram realizados e a qual remessa ele pertence.
Para uma agroindústria familiar, manter registros de temperatura, ingredientes, higienização, produção e armazenamento representa uma etapa fundamental da profissionalização.
Estrutura adequada às exigências sanitárias
A implantação exigiu investimentos consideráveis. Os equipamentos e superfícies que entram em contato com o leite e o iogurte são fabricados em aço inoxidável, material resistente, de fácil limpeza e adequado à indústria de alimentos.
“Todo o processo, desde onde fica o leite até a produção e a embalagem, utiliza equipamentos de inox”, relatou.
Vital afirmou que o orçamento inicialmente previsto foi superado devido aos custos dos equipamentos e das adequações necessárias.
“Tínhamos um projeto inicial de investimento, mas o valor praticamente triplicou”, contou.
A estrutura foi construída com material isotérmico, escolhido por facilitar a higienização e o controle do ambiente. Embora o investimento tenha sido superior ao de uma construção convencional, a família optou por uma solução considerada mais adequada e atual.
A agroindústria também conta com acompanhamento técnico e orientação sanitária. Para Vital, as exigências fazem parte da responsabilidade de colocar um alimento seguro no mercado.
“Nós entendemos a exigência da fiscalização, porque estamos levando um alimento perecível para a população”, afirmou.
Trabalho dividido entre os familiares
A agroindústria funciona por meio da participação direta da família. Cada integrante assumiu uma responsabilidade específica, desde o manejo do rebanho até os controles laboratoriais, a fabricação, a limpeza e a administração.
Vital passou a se concentrar principalmente na gestão do empreendimento. O irmão ficou responsável pela criação das vacas e pela produção do leite. As demais etapas são divididas entre esposas, cunhadas, irmã, pai e mãe.
“Para o negócio dar certo, é preciso dividir as responsabilidades. Esse foi o nosso combinado desde o início”, explicou.
As atividades ligadas aos testes e ao acompanhamento da produção ficam sob a responsabilidade de familiares capacitados para os procedimentos. Depois da fabricação, outra integrante realiza a limpeza e a higienização dos ambientes e equipamentos.
“Cada pessoa tem um papel importante dentro da empresa”, destacou.
A participação coletiva reduz custos, mantém a renda dentro do núcleo familiar e reforça a identidade do produto.
Comercialização ainda é um desafio
Mesmo com a regularização, conquistar espaço no mercado continua sendo um dos principais desafios.
Vital avaliou que muitos consumidores demonstram maior confiança em marcas nacionais e produtos fabricados em outros estados, enquanto os alimentos regionais ainda enfrentam resistência.
“As pessoas conhecem marcas que vêm de São Paulo, Minas Gerais ou Rio de Janeiro e compram. Quando se trata de um produto feito aqui, ainda existe certa rejeição”, observou.
Para mudar essa realidade, a agroindústria aposta na degustação, na divulgação pelas redes sociais e na demonstração da qualidade do processo.
“Estamos quebrando essa situação e mostrando que o produto daqui possui alta qualidade e é bem feito”, afirmou.
A valorização do produto local contribui para manter os recursos no município, gerar trabalho no campo, fortalecer os assentamentos e incentivar outras famílias a investir na transformação da produção.
Novos mercados e distribuição regional
Com o Selo SIM e o início da produção comercial, a família passou a estabelecer contato com mercados e outros pontos de venda de Porto Velho.
Durante a entrevista, Vital informou que algumas parcerias estavam em fase de negociação e que os locais de comercialização seriam divulgados pelas redes sociais.
A propriedade também tem recebido manifestações de interesse de consumidores de outros municípios e distritos, incluindo Guajará-Mirim, Itapuã do Oeste e Vista Alegre do Abunã.
A expansão, no entanto, depende de fatores como autorização sanitária, logística refrigerada, capacidade produtiva, conservação e formação de uma rede de distribuição.
O iogurte precisa permanecer sob temperatura adequada durante o armazenamento e o transporte. Qualquer falha na cadeia de frio pode comprometer sua qualidade e segurança.
Regularização amplia oportunidades
Além de permitir a comercialização, a formalização modifica o relacionamento da agroindústria com instituições financeiras, fornecedores e potenciais compradores.
Vital explicou que uma empresa regularizada pode ter acesso a linhas de crédito específicas e valores compatíveis com os investimentos necessários à ampliação.
“Tivemos gastos, mas hoje temos uma empresa registrada e reconhecida. Isso muda o ambiente e amplia as possibilidades”, avaliou.
O acesso a financiamento pode ser utilizado para adquirir equipamentos, aumentar a produção, estruturar a distribuição e melhorar o manejo do rebanho.
Para que o investimento seja sustentável, porém, a expansão deve acompanhar a capacidade de venda e a disponibilidade de matéria-prima.
Persistência é a principal mensagem aos produtores
Ao final da entrevista, Vital deixou uma mensagem para outros agricultores familiares que desejam transformar a produção, mas têm receio de investir.
“Não tenha medo de se arriscar. Quem tem vontade de crescer precisa tentar”, aconselhou.
Ele também ressaltou a importância de buscar apoio em instituições como o Sebrae, a Prefeitura e os órgãos de assistência e inspeção.
“Hoje existem instituições que podem ajudar. As exigências fazem parte do processo, mas conseguimos o certificado e encontramos portas abertas”, afirmou.
A história de Vital do Sacramento Gomes demonstra que a agroindustrialização pode transformar a realidade de uma família rural. Ao beneficiar o leite na própria propriedade, o produtor agrega valor, amplia a renda e cria uma relação direta com o consumidor.
A conquista do Selo SIM representa um passo decisivo nessa caminhada, mas a consolidação dependerá da continuidade dos controles sanitários, da organização financeira, da ampliação responsável da produção e da confiança do mercado.
Endereço da agroindústria: Assentamento Joana D’Arc, Linha 11, lotes 21 e 22 — Porto Velho, Rondônia.
Assista à entrevista completa no canal Olá Rondônia:
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